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Opinião

10/01/2013 00:00

O bom selvagem: Artigo de autoria do jornalista Alexandre Garcia

O mito do bom selvagem defendido por filósofos europeus a partir das descobertas de Colombo, e consolidado por Jean-Jacques Rousseau, pode ser confrontado com o que se passa hoje no Brasil. O selvagem puro na natureza teria sido contaminado pelo colonizador europeu. Aqui, a gente sabe que não é verdade. Os índios ateavam fogo no que hoje chamamos de mata atlântica para cercar o inimigo, literalmente comiam-se uns aos outros; crianças nascidas com defeitos estão condenadas à morte. Pois bem, misturaram-se europeus e depois africanos e temos o tipo brasileiro, que o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda em Raízes do Brasil, chamou de "O homem cordial" - muitas vezes mal compreendido.

Lembrei-me disso ao ler, no domingo, a Revista do Correio Braziliense, trazendo em reportagem de capa, profusamente ilustrada com fotos, as tristes histórias de gatos e cachorros atacados por seres humanos na capital do Brasil. Num cachorro, jogaram ácido, em outro, álcool com fogo; num gatinho, amarraram fogos juninos; o cachorro que quebrou a perna foi abandonado pelo dono em um buraco, onde outros jogaram lixo; o cachorrinho preso em um bueiro virou alvo de pedradas de crianças, e assim por diante. Quando se chega ao fim da reportagem, se imagina que humanidade é essa, que trata assim animais indefesos.

No país do homem cordial, matamo-nos à razão de 150 por dia, em qualquer idade. No fim de semana, em Praia Grande, litoral de São Paulo, uma menina de 14 anos apontou um revólver para um turista de 29 anos, que passeava com a enteada e a prima. Ele hesitou em entregar-lhe o relógio e foi baleado no peito. A assassina roubou-lhe no mínimo 50 anos de vida. E não posso chamá-la de assassina nem de criminosa, porque, afinal, ela é protegida pela lei; é apenas uma menor infratora, neste país cordial com os condenados. Afinal, Carlinhos Cachoeira, condenado a 39 anos de prisão, naquele dia desfrutava de um resort de luxo na Bahia, da bela Andressa e de um habeas corpus. Habeas o quê?

Em Copacabana, onde passei as festas de fim-de-ano por força de plantão de trabalho, assustei-me com o lixo jogado no calçadão, as cusparadas no chão, por pessoas que sequer sabem caminhar no meio urbano, desconhecem mão e contramão. Empurram-se, gritam, e até aconteceu de um urinar numa bicicleta. Ao ser repreendido pelo dono do veículo sacou uma pistola e acionou o gatilho. Só não o matou, porque o primeiro dos 16 cartuchos negou fogo. Já não somos os "bons selvagens" da utopia do século 18. Perdemos o adjetivo.


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